Uma quadrilha responsável por um sofisticado golpe de investimentos falsos foi alvo da Operação Criptoabate, deflagrada pela Polícia Civil. A investigação apura que uma aposentada de 70 anos transferiu R$ 37 milhões para uma plataforma fraudulenta ao longo de seis meses depois de receber uma herança e ser convencida por promessas de ganhos elevados.
Segundo o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC), o esquema envolvia páginas e aplicativos com aparência profissional, comunidades de estudo fictícias, “professores” e consultores forjados, além de um extrato virtual que mostrava lucros inexistentes. Quando a vítima tentou resgatar o dinheiro, descobriu que os valores não eram recuperáveis.
Como atuava o golpe
Investigadores descrevem o método como a versão conhecida internacionalmente por “pig butchering” (golpe do ‘abate de porcos’): criminosos criam relacionamento com a vítima, ganham confiança e induzem aportes sucessivos por meio de plataformas falsas. No caso investigado:
- Os golpistas se apresentavam como funcionários de uma empresa identificada como TDASX, que fechou após o início das apurações;
- Era oferecida uma comunidade de estudo e supostos especialistas que orientavam investimentos; havia até um professor falso entre os contatos usados para validar a operação;
- Às vítimas era mostrado um saldo virtual crescente, o que as levava a transferir valores maiores para a plataforma;
- Pedidos de novos depósitos apareciam como condição para “liberar” ou multiplicar valores já supostamente aplicados.
Escopo da investigação e prisões
Na quinta-feira (13) a Polícia Civil cumpriu 90 ordens judiciais em três estados na Operação Criptoabate. Foram identificadas cerca de 140 possíveis vítimas espalhadas pelo país. Três pessoas foram presas e outras sete são procuradas pelas autoridades. Dois suspeitos foram detidos durante a fase inicial da ação e, na manhã desta sexta-feira (14), outro homem apontado como chefe do esquema foi preso no Rio de Janeiro.
A investigação aponta para a participação de donos de instituições financeiras que operam serviços de conversão para criptomoedas, além de dois estrangeiros e de uma gerente de banco ligada à abertura de contas usadas pelos criminosos para pulverizar e movimentar os recursos.
Movimentações financeiras e alcance
O DERCC informou que as transações suspeitas associadas ao grupo chegam a R$ 30 bilhões. Em um único dia, uma das instituições sob apuração movimentou R$ 295 milhões. Também foi identificada uma empresa em São Paulo com movimentações atípicas de cerca de R$ 500 milhões no período investigado.
Perfil da vítima e alertas das autoridades
O chefe do DERCC, delegado Eibert Moreira, declarou que a vítima tinha histórico de investimentos e um perfil considerado mais agressivo, com preferência por produtos de maior risco. Mesmo após alertas do corretor que a atendia em instituição regular, ela decidiu transferir todo o patrimônio para a plataforma fraudulenta ao longo de seis meses — perdendo também parte da rentabilidade acumulada em aplicações anteriores.
As autoridades recomendam cautela e listam sinais de alerta:
- Promessas de rentabilidade muito acima do mercado;
- Plataformas sem credenciais verificáveis ou que não constam em órgãos reguladores;
- Solicitações constantes de novos depósitos para “liberar” supostos lucros;
- Contatos que tentam isolar a vítima de seu assessor ou corretor habitual.
Origem do golpe e desdobramentos
A polícia aponta que a técnica do “pig butchering” tem origem em quadrilhas do sudeste asiático, com relatos anteriores de atuação em países como Laos, Camboja e Mianmar. No caso sob apuração, os investigadores continuam a rastrear a origem dos recursos e o destino dos valores transferidos.
As autoridades informaram que a empresa usada como fachada no esquema (TDASX) fechou após o início das investigações e que, até a manhã desta sexta (14), não havia sido possível localizar os responsáveis por ela. O inquérito segue em andamento e novas prisões e medidas judiciais não estão descartadas.
Quem desconfia de possível fraude deve registrar boletim de ocorrência e procurar seu banco ou corretora para bloquear transferências — além de avisar familiares e assessores financeiros.
via G1